Carlos OliveiraNão compreendo os motivos que levam os portugueses a manifestarem-se contra a actual situação política.

Falei com um jovem emigrante que se regozijou com a obrigatoriedade de viajar para outro país, conhecer outras gentes, outras culturas, e ter uma vida melhor.

Finalmente, lá fora, sentia-se feliz.

“Obrigado Portugal” – disse ele.

Falei com um desempregado que me disse estar contentíssimo com a situação. Pagam-lhe para não fazer nada. Agora, no desemprego, tem assistido a todos os jogos do Mundial, o que é óptimo.

“Obrigado Portugal” – disse ele.

Falei com um professor que lecciona numa escola que vai fechar. Como não pertence ao quadro fica na “mobilidade”, o que muita alegria lhe traz, pois há 10 anos que não se levanta da cadeira de rodas.

“Obrigado Portugal” – disse ele.

Falei com uma enfermeira a trabalhar num posto de saúde, que, por coincidência, também vai fechar porque caíram na asneira de tratar os doentes todos. Já concorreu para um hospital público, onde a política de saúde lhe dá a garantia de ter sempre doentes para tratar a vida inteira.

“Obrigada Portugal” – disse ela.

Falei com um presidiário, autor de vários incêndios florestais. Também estava muito satisfeito, com cama, mesa e roupa lavada, sem nada ter que pagar. Pratica desporto, e tem na sua cela uma televisão que lhe permite ver os fogos em directo.

“Obrigado Portugal” – disse ele.

Falei com um banqueiro, que estava radiante por o seu processo judicial ter prescrito. Poderia agora ingressar em qualquer outra administração, e com bons saldos em bancos suíços.

“Obrigado Portugal” – disse ele.

Falei com um escritor que não consegue publicar os seus livros. A verdade é que ainda não escreveu nenhum. A fome tira-lhe a força e a inspiração para escrever. Diz que um seu amigo artista já conseguiu resolver essa falta de ânimo – morreu. Precisamente no dia em que fecharam o Ministério da Cultura.

Sobre Portugal, o escritor nada disse. E o artista nem sequer abriu a boca!

Por fim, falei com um sem-abrigo. Estava comodamente instalado junto à escadaria da Assembleia da República. Sorria feliz porque não paga renda de casa, nem água nem luz, e ainda tem um subsídio de inserção social.

Junto a ele um letreiro dizia: EU PORTUGAL  

Carlos Oliveira