Carlos OliveiraSento-me num banco de jardim, na fresca sombra do plátano que me guarda, oiço as cigarras cantando, respiro o ar morno do outono, e sinto-me tranquilamente feliz.

Olho a folhagem ondulando suavemente com a brisa que sopra devagar, o azul do céu como uma tela pintada de nuvens brancas, algumas aves que voam antes do anoitecer, e ali fico contemplando a beleza do pôr-do-sol, que partilha comigo a maravilha da sua criação.

Apenas eu e a Mãe-Natureza que tudo me dá…

Tenho o privilégio de viver. Habito um corpo de ser humano, em constante evolução de aperfeiçoamento do ser.

Um dia sairei dele, e ascenderei a níveis de vida superior. Tal como o Principezinho dizia: “não levarei o corpo comigo, por ser muito pesado!”. Ficará na terra, desintegrando-se por falta de energia.

Essa sim, irá comigo na grande caminhada, tornando-me num ser de luz metafísico.

O que ficar na terra restará como memória que o tempo apagará. Será a recordação deste invólucro físico que me guarda, tal como o plátano faz no banco de jardim onde me encontro.

Quando me levantar e regressar a casa, deixarei de existir ali naquele lugar, ouvindo o canto das cigarras e olhando longe o céu e o sol.

Quem por ali passar então, já não me verá. Estarei liberto e projectado numa outra dimensão, mas feliz por ter vivido naquele jardim.

Caso não tenha aprendido tudo o que preciso para ser perfeito, talvez lá volte um dia, como muitos outros fazem.

Num outro futuro, numa outra geração, num outro ser humano deste mesmo planeta.

E isso será sempre assim até à perfeição total da espécie. Nós não moramos aqui. Viemos como mensageiros do espírito que nos levará de regresso a casa…

Carlos Oliveira

crónica 63