Filipa Filipe, 30 anos, natural do concelho de Alpiarça e actualmente a residir em Santarém, é a candidata do Bloco de Esquerda (BE) à Câmara Municipal de Santarém nas eleições de 1 de Outubro.

É psicóloga clínica e integra a Comissão Coordenadora Distrital e a Comissão Concelhia do BE.

Nesta entrevista ao Correio do Ribatejo, Filipa Filipe assegura ser determinante criar “uma democracia participativa no concelho”. A par disso, o concelho deve ainda libertar-se “das amarras do PAEL”.

Defende que a restauração das freguesias deve ser feita por “vontade da população e em referendo” e sugere para a ex-Escola Prática um “bom Parque da Cidade”.

Na hora de elogiar, as melhores referências vão inteirinhas para o padre Ganhão: “o seu dinamismo fez mais pelo património do que a Câmara em 20 anos”, assegura a candidata do Bloco.

Filipa Filipe promete estudar a criação de um ascensor “que ligue São Domingos ao Planalto” e quando lhe perguntámos quais as linhas de acção que entende necessárias para que hajam mais pessoas a residir no Centro Histórico, a resposta foi uma nova pergunta: “Quando licenciaram a criação de tantos hipermercados junto ao centro da cidade não sabiam que estavam a contribuir para matar o comércio local?”

A candidata não tem duvidas: “Precisamos demarcar-nos dos outros estilos governativos e isso começa com uma autêntica revolução cidadã.”

Os últimos oito anos mudaram a relação da Câmara Municipal com os seus munícipes. Para uns, para melhor, mas para outros, para pior. Que balanço faz dessas alterações e o que mudaria se vencesse as próximas eleições autárquicas?  

Fazemos um balanço negativo. Houve um afastamento do centro de decisão política face aos cidadãos e às cidadãs e um menosprezo da cidadania activa. Se não se promover a comunidade como interlocutora para a tomada de decisões, o que muda não é substancial. É desejável reerguer o conceito de Democracia, explicando à oposição e ao povo em geral sem representação partidária, como e porquê se tomam as decisões. A proximidade às populações não pode continuar a ser feita apenas em campanha eleitoral. Os movimentos de Cidadania têm aí um lugar para se exercerem responsavelmente.

Constata-se um crescente desagrado da população devido: à degradação dos serviços públicos camarários na higiene; “abandono” do Centro Histórico, Ribeira e Alfange; destruição dos jardins românticos que fazem parte da identidade da cidade; “abandono” das freguesias rurais; degradação e insuficiência das infraestruturas desportivas, como é o caso da inexistência de pavilhão gimnodesportivo em Alcanede e em Pernes.

Há uma perda populacional significativa, em especial nas zonas rurais e nos jovens. Há uma permanência de desordenamento do território e dos espaços florestais, sendo que a revisão do Plano Director Municipal (PDM) continua atrasada há demasiado tempo.

Assinalamos o endividamento da CMS como sendo da inteira responsabilidade da gestão camarária primeiramente do PS/Rui Barreiro e continuada por Moita Flores e até Ricardo Gonçalves do PSD. Esse endividamento forçou a população scalabitana a “apertar o cinto” com medidas de austeridade da troika: o Plano de “Apoio” à Economia Local (PAEL). Na prática aumentou os impostos às pessoas, impondo valores máximos de IMI e de taxas no recibo da água. PS e PSD geriram mal a Câmara, as pessoas pagam por essa má gestão camarária.

Se vencesse as eleições começaria por tentar aproximar e entusiasmar as pessoas em torno da cidadania e da vida política. Pois a Política é a ciência da governação, uma arte de negociação para compatibilizar interesses e diz respeito ao espaço público. Para isso, implementaria o Orçamento Participativo, para que as pessoas pudessem decidir o destino de uma parte significativa do dinheiro, com o intuito de melhorar o concelho. Precisamos demarcar-nos dos outros estilos governativos e isso começa com uma autêntica revolução cidadã!

Há uma atitude muito passiva por parte de Ricardo Gonçalves e do PSD. E a força do Bloco faz a diferença!

 

Na história das Autárquicas, o Bloco de Esquerda (BE) ainda não elegeu nenhum vereador à Câmara Municipal de Santarém, conseguindo representação na Assembleia Municipal. A que se deve o facto do BE não conseguir, nas Autárquicas, em Santarém, os resultados que tem vindo a conseguir nas eleições nacionais?

No dia 24 de Abril, ninguém sabia que no dia a seguir a ditadura ia cair e começar a democracia! Em Barcelona, o Podemos, um partido acabado de nascer fez uma aliança de cidadania, como nós, e Ada Colau ganhou as eleições. O Bloco é o partido com mais propostas apresentadas e aprovadas na Assembleia Municipal. Somos o voto útil.

 

O BE poderá assumir-se como ‘concorrente’ da CDU no aproveitar de um certo descontentamento do eleitorado de esquerda no Concelho?

Realmente, a CDU e o PS quase não fizeram oposição a Ricardo Gonçalves e ao PSD. O PS absteve-se em todos os orçamentos e relatório de contas, Rui Barreiro é muito crítico mas na hora da verdade, o PS viabiliza a política do PSD na Câmara. Portanto, não tem sido coerente.

Também a CDU tomou várias vezes a mesma posição, apesar de fazer duras críticas. O Bloco disputa as eleições com qualquer outro dos partidos. Sabemos que existem pessoas descontentes com a CDU, como com qualquer outro dos partidos concorrentes, que se identificam na aliança cidadã apoiada pelo Bloco de Esquerda. Têm motivos válidos para se identificarem e nos darem o seu voto de confiança.

No entanto, queremos chegar também às pessoas que se abstém. A abstenção é caracterizada pelo alheamento à vida desta comunidade, pelo desânimo de quem não é escutado e por um certo desinteresse em relação à vida política, porque esta não se tem traduzido num maior sentimento de felicidade e de pertença, nem numa maior coesão social.

 

Quais os aspectos ideológicos que, em seu entender, diferenciam a sua candidatura das restantes que levem o eleitorado a dar-lhe a confiança do seu voto?

A abertura do Bloco de Esquerda a uma aliança cidadã com pessoas oriundas do Coração da Cidade, do Mais Santarém, do associativismo desportivo, cultural e artístico, bem como do sindicalismo, que construíram 10 Laços de uma Candidatura de Cidadania e Afecto por Santarém, é uma marca identitária que junta forças na cidadania e afecto por Santarém.

Ideologicamente o Bloco aposta na juventude. É aliás interessante a coincidência de que também Salgueiro Maia tinha a minha idade quando saiu da Escola Prática de Cavalaria com os capitães de Abril.

As nossas listas integram também 62 independentes e 40 aderentes, 57 mulheres e 45 homens, representando uma pedrada no charco no panorama político do concelho.

 

Que eixos estruturantes pretendem desenvolver no concelho?  

A agricultura biológica é fundamental como eixo estruturante no concelho. Mas, pergunto, é possível implantá-la sem a compreensão e a participação activa das pessoas? Não. Por isso é determinante criar uma democracia participativa no concelho. A permacultura, o ordenamento florestal, a aposta no cultivo de ervas medicinais e aromáticas (como demonstra o bom exemplo em Vale da Trave) são essenciais. Será isto possível sem um despertar da cidadania? Não.

Outro eixo estruturante é a introdução de medidas de inclusão social de pessoas com mobilidade reduzida, surdez, cegueira e com necessidades educativas especiais. Para além de ser uma questão da dignidade humana, a inclusão traz benefícios económicos, quer a nível do emprego, passando a ser contribuintes, como do turismo (em especial na época baixa). Isto também só é possível com um avivar da cidadania!

Um bom plano de intervenção para a regeneração e mobilidade urbanas é outro dos eixos estruturantes. É preciso apoiar e recuperar a habitação nas freguesias rurais e no Centro Histórico, Ribeira e Alfange.

Ninguém se pode esquecer do Rio Tejo! Surpreende como é que o PSD rejeitou a moção do Bloco de Esquerda, na Assembleia Municipal de Santarém, pelo encerramento da central Nuclear de Almaraz. Esta central está a ter falhas sucessivas. Imaginam a consequência da contaminação radioactiva no rio Tejo? São milhões de pessoas que vão ficar privadas de usar as águas. Não poderão bebê-las, usá-las para a agricultura… Por outro lado, o Tejo está poluído e assoreado quando poderia ser uma excelente fonte de dinamização económica, turística e ambiental.  O Ministério do Ambiente continua a ter uma posição fraca frente aos transvases que em Espanha retiram água do Tejo e aos focos de poluição situados em Portugal. Existem imensos vídeos demonstrativos da poluição e a perda de vida do rio é constante. E a voz de Ricardo Gonçalves também não se tem feito ouvir de forma assertiva.

Neste aspeto, valorizo muito a atividade do movimento Ecologista do Vale de Santarém, do Coração da Cidade e de outros movimentos que têm participado na Pró-Tejo. Continuaremos a apoiar ativamente a ideia, dos movimentos ecologistas, pela criação de uma Ecovia do Vale de Santarém a Rio Maior usando a antiga linha do comboio que passava muito junto ao Rio Maior. Tal como os Passadiços do Paiva esta Ecovia pode ser um grande sucesso económico e ambiental.

 

Quais as medidas que propõe para equilibrar as contas da Câmara no médio e longo prazo? Dada a actual conjuntura haverá margem para investimentos nos próximos anos? Como pensa proceder?

Primeira medida: denunciar o ruinoso acordo que o PSD fez com o governo de transferência de competências da Educação para a autarquia que já causou mais de 2 milhões de euros de prejuízo a Santarém.

Segunda medida: rejeitar novas transferências de competências na Saúde que o actual governo quer fazer para as Câmaras.

Terceira medida: acelerar a renegociação da dívida – como sempre defendemos. É fundamental sair o mais depressa possível das amarras do PAEL. 79 municípios conseguiram já libertar-se desse plano de austeridade da troika, enquanto Santarém continua a ser um dos 17 municípios que ainda não saiu.

Quarta medida: Desenvolver o turismo cultural, ecológico e religioso. Pergunto eu, o que se aproveita dos milhares de peregrinos que se deslocam para Fátima e Santiago de Compostela? É preciso uma sinergia de actividades de apoio aos peregrinos, de dinamização cultural com os agentes e artistas locais, por exemplo: animações teatrais; facilitação de transportes no centro da cidade; abertura coordenada dos monumentos, interligação com o comércio local…

Quero fazer um elogio público ao padre Ganhão e ao seu trabalho de recuperação do património da cidade. O seu dinamismo fez mais pelo património do que a Câmara em 20 anos!

 

Um dos cenários que mudou nos últimos anos foi a privatização de serviços autárquicos que agora são prestados por empresas municipais. Defende a continuação da empresa Águas Santarém ou a passagem para a Águas do Ribatejo? E sobre a Empresa Viver Santarém, concorda com a diversidade de actividades que a compõem?

Defendemos que os serviços autárquicos sejam públicos e não originem empresas municipais, por uma questão de maior transparência e de maior controlo democrático. Assim, no caso concreto da passagem da Águas de Santarém para a Águas do Ribatejo, concordaremos se esta implicar que o capital se mantenha totalmente público e mediante acordo com mútuos benefícios.

A Viver Santarém custa cerca de 600 000 euros em transferências da Câmara por ano. Queremos estudar e debater com a população e as colectividades que utilizam os seus serviços, a passagem das suas funções integrando-as da Câmara Municipal e mantendo as trabalhadoras e os trabalhadores.

 

A reforma que levou à criação das uniões de freguesias no Concelho continua a ser um processo criticado por muitos. Qual o modelo de funcionamento das novas freguesias que preconiza, sabendo que no caso da União de Freguesias da Cidade esta representa quase metade do eleitorado?

Quando o PSD decidiu extinguir freguesias o Bloco de Esquerda foi contra, porque consideramos que deveriam ser as populações a decidir em referendo. Do mesmo modo, defendemos que a restauração das freguesias deve ser feita por vontade da população em referendo. Vaqueiros e Vale de Figueira são exemplos de má extinção de freguesia.

É necessário resolver o problema da delimitação de freguesias entre Pernes, S. Vicente do Paúl e Achete. Os próprios autarcas do PS não se entendem entre si!

O modelo de funcionamento das novas freguesias deverá basear-se na cooperação entre elas, por exemplo, na partilha de equipamento, na entreajuda em serviços, etc. A Câmara deverá exercer uma atitude de concertação mais proactiva em relação às freguesias. Deverão haver serviços públicos municipais também as freguesias rurais.

 

Da história conhecida sobre a mudança da linha do Norte da Ribeira de Santarém houve um projecto bem encaminhado para conseguir esse objectivo e criar uma plataforma logística regional que acabou por não vingar. Passados tantos anos pensa que seria importante recuperar este projecto? Que tarefas devem ser levadas a cabo para que a ligação da cidade à zona ribeirinha se torne mais efectiva? 

É preciso um debate sério e não promessas eleitorais com as populações de Ribeira e Alfange sobre o impacto da linha do Norte nas localidades. Precisamos de ter a certeza absoluta sobre o impacto da linha do Norte nas barreiras. Se se chegar à conclusão da imperatividade da mudança da linha do Norte temos de “fazer voz grossa” com o governo. Até lá é necessário eliminar as passagens de nível que se perpetuam há dezenas de anos, sem que os executivos do PS e do PSD tivessem sido proactivos para sua eliminação.

Um investimento tão elevado na linha do Norte implica verbas no orçamento de Estado, e portanto, temos de ser mais exigentes com o governo. É preciso não esquecer que são obras que dependem das Infraestruturas de Portugal. A primeira tarefa para ligar a cidade à zona ribeirinha é torná-la atractiva, ninguém quer ir tomar banho ao Tejo numa água poluída. Depois é preciso cuidar das suas margens e torná-las agradáveis ao usufruto das pessoas.

 

Que comentário lhe merece a prolongada interdição ao trânsito da Estrada Nacional 114, entre o planalto e a ponte D. Luís?

Em Janeiro 2014, o deputado Municipal do Bloco de Esquerda Vítor Franco, eleito para membro da Comissão da Protecção Civil, escreveu um email ao presidente Ricardo Gonçalves manifestando preocupação com as cheias e as barreiras. As barreiras caíram em Agosto de 2014 forçando o corte da EN114.

O Bloco de Esquerda fez propostas de melhoria do trânsito junto à Estação Ferroviária que foram rejeitadas pelo PSD sem Ricardo Gonçalves ter introduzido qualquer outra medida de melhoramento. Todos os dias se verificam engarrafamentos no trânsito. Não deveria ser em época de eleições que se começa a intervir sobre as barreiras, como forma de apelar facilmente ao voto através de cartazes apelativos, que vão além da mera indicação da obra.

 

Há muitas queixas pela falta de um lobby concelhio que defenda uma estratégia para os interesses regionais junto das instâncias do governo nacional. Veria com bons olhos uma convergência de interesses, suprapartidária, para o concelho e para a região? Como?

Como referi anteriormente, é necessária uma “voz grossa”, uma voz forte sobre o governo. Por exemplo, foi com o governo PSD/CDS que a Unicer e a Rical saíram de Santarém. Na Assembleia Municipal nós propusemos moções contra a saída destas fábricas que foram aprovadas por unanimidade. Faltou o lobby de pressão por parte de Ricardo Gonçalves.

 

Ultimamente veio a público a falta de condições no concelho, de que Santarém é capital de Distrito, para a instalação de novas empresas, que assim se deslocaram para concelhos vizinhos. Quais as propostas da sua candidatura para evitar estas situações e que propostas para implementar o desenvolvimento económico e o emprego na área do concelho?

É fundamental que uma aposta estratégica na agricultura biológica seja entrelaçada com a Escola Superior Agrária de Santarém, com o Instituto Politécnico e com a Estação Zootécnica Nacional no Vale de Santarém. Para além disso, existem várias fábricas de transformação de produtos agrícolas.

Outros setores importantes para o nosso concelho e para a atração de população e emprego são a cultura, turismo, tecnologia e serviços públicos de qualidade.

É preciso criar políticas culturais públicas diferenciadoras, dinamizando a cultura e a arte nas suas diversas vertentes apoiando os jovens, os novos valores e a modernidade, colocando esses factores ao serviço da cultura regional e do turismo.

Como referido nos “10 laços de uma candidatura cidadã e de afeto por Santarém”, é preciso envolver cidadãos e cidadãs de todo o concelho num compromisso mútuo para o bem-estar de todos.

Sejamos claros: o fundamental do desenvolvimento económico depende da política económica do governo e do Orçamento de Estado. Existem limitações ao apoio do desenvolvimento económico e fixação de empresas no concelho impostas pelo PAEL, que também obrigam o governo a rever esta legislação. Por isso, é necessário que a Câmara Municipal de Santarém e a Associação Nacional de Municípios sejam mais fortes na defesa dos seus municípios.

 

Que equipamentos entende serem necessários para o desenvolvimento mais equilibrado das freguesias do concelho, quais são os mais urgentes e onde os implantar?

A população sabe melhor do que ninguém o que precisa e quer para as suas terras. Uma boa definição de quais os equipamentos necessários nas freguesias do concelho implicam um bom e transparente orçamento participativo. A proposta de Rui Barreiro é diminuta e insuficiente para responder às aspirações das populações. É lógico que faltam pavilhões gimnodesportivos na cidade e no norte do concelho. Até uma piscina.

A situação do atraso nas obras na Escola Básica de Almoster é também consequência da pressa que a Câmara teve de acabar com as anteriores escolas.

É evidente que ainda faz falta uma nova sala de espetáculos de média dimensão. Mas mais falta ainda, o apoio aos artistas locais, a articulação e entreajuda na Cultura e a rentabilização dos espaços existentes.

Um dos equipamentos que é preciso estudar é a criação de um ascensor que ligue São Domingos ao Planalto, talvez do tipo do que liga a Nazaré ao Sítio. Moram milhares de pessoas concentradas nesta zona da cidade que necessitam de uma melhor mobilidade. Outro exemplo: falta alcatroar a estrada da “Carreira de Tiro” para a população poder sair directamente para a EN3.

 

A recolha de resíduos sólidos tem variado entre a prestação do serviço pela autarquia ou por empresas privadas. Qual a sua proposta para este campo, que evite, nomeadamente, que os caixotes de lixo estejam por despejar durante muitos dias?

É conhecida a má recolha do lixo. A Câmara e a empresa de recolha devem assumir as suas responsabilidades. Volto a recordar que há limitações de recrutamento de funcionários por imposições do PAEL. É conhecido o desleixo que as ruas do Centro Histórico são votadas pelas Câmara, até foi criada a página do Facebook “Santarém – Capital com Erva Daninha”.

Problema por debater publicamente está o estatuto da Resitejo e a sua relação jurídica com os municípios. Estamos a falar de negócios de milhões de euros. O BE já interveio várias vezes sobre o assunto na Assembleia Municipal porque a Câmara é accionista da Resitejo, é lá que entregamos os lixos e pagamos muito por essa entrega!

 

Com a diversidade de ocupações e a intenção de novos projectos conhecidos para implantar na ex-Escola Prática de Cavalaria, deverá ser feito um plano de pormenor para aquele espaço? Porquê?

Consideramos necessário a realização de um debate público sério e um Plano de Pormenor para a ex-Escola Prática de Cavalaria. Entendemos que aquele podia ser um bom Parque da Cidade, com circuitos de prática desportiva e de manutenção, de lazer, um parque de caravanismo, uma quinta pedagógica, etc. Mas qualquer destas opções precisa de reflexão, de estudos, análise de outros exemplos como Parque da Cidade do Porto e escolhas responsáveis, sustentáveis, onde se possa integrar um futuro Museu da Liberdade…

A instalação casuística de tribunais, empresas, entre outros, sem uma definição de estratégia clara é que não é positiva.

 

Que futuro preconiza para o antigo campo da feira? A Câmara deve apoiar uma urbanização desportiva, como a que propõe a actual direcção da União Desportiva de Santarém, ou destinar o espaço para outros equipamentos públicos, jardim, ou hotel por exemplo? 

O antigo campo da feira (o campo Emílio Infante da Câmara) é o último dos terrenos valiosos do planalto da cidade. Tal como com a situação da ex-EPC é necessário fazer-se debate público sério e incluir um Plano de Pormenor. Deve a praça de touros mudar de lugar para abrir espaço ao usufruto público?

É claro que a Câmara não deve privilegiar um único clube desportivo. O dito projecto da União de Santarém teria por detrás um investidor que até hoje é anónimo. É estranho, não é? Mesmo neste projecto a Câmara teria de investir milhões de euros em infraestruturas de esgotos, águas, canalizações técnicas de comunicação e energia, arruamentos, etc.

A Câmara deve apoiar todos os clubes do concelho por igual, por exemplo, a Câmara deveria ter meios de transporte de atletas disponíveis a todos os clubes de forma coordenada.

 

Há um grande incremento de novas associações a necessitar de espaço. Elas estarão na ex-EPC e foi anunciado o antigo centro comercial ‘Escala 4’, no Centro Histórico. Que tipo de apoio deve ser garantido pela Câmara neste domínio?

A Câmara deve ser o mais justa possível nos apoios que dá e devem ser reanalisados os critérios para apoiar as associações, como referi na pergunta anterior. O Concelho Municipal do Desporto deve ser uma ferramenta essencial na definição das políticas desportivas e do uso dos equipamentos. Quero valorizar o extraordinário empenho e voluntariado dos dirigentes dos clubes desportivos do nosso concelho. Graças a esse voluntariado milhares de jovens praticam desporto contribuindo para a sua saúde e bem-estar físico e psicológico.

 

Quais as linhas de acção que entende necessárias para que hajam mais pessoas a residir no Centro Histórico de Santarém e mais negócios duradoiros?

Considero fundamental a regeneração e mobilidade urbanas, que inclua várias vertentes: É preciso reduzir para valor mínimo o IMI das habitações do Centro Histórico, Ribeira e Alfange; mas PSD, PS e CDU rejeitaram sempre as propostas do BE com o argumento das imposições do PAEL. Tem de haver benefícios para reabitar o Centro Histórico senão será muito difícil. Já viram que há dezenas de anos se anda a debater o Centro Histórico e ele está cada vez pior? Quando licenciaram a criação de tantos hipermercados junto ao centro da cidade não sabiam que estavam a contribuir para matar o comércio local? É preciso criar uma Bolsa de Habitação a partir de protocolos entre proprietários e proprietárias de casas devolutas e a Câmara, estudando bons exemplos de outras cidades; É necessário apoiar Associações de Moradores para a dinamização da vida nos bairros, apoio à Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural, à Associação de Comerciantes, entre outras, como entidades fundamentais para a dinamização do Centro Histórico. E ainda são precisas melhorias ao nível dos transportes públicos, como por exemplo: autocarros mais pequenos, a fazer trajectos mais pequenos; horários mais abrangentes (são necessárias mais viagens ao final da tarde); melhorias nas vias de acessos, nos estacionamentos e nos pisos das ruas para facilitar a circulação dos peões.

 

Em termos turísticos Santarém passou a estar sob a alçada da Entidade de Turismo do Alentejo. Sendo esta condição uma certeza, que medidas propõe para o desenvolvimento turístico do concelho, incluindo no sector da gastronomia, e quais as propostas para investir no mercado religioso, nomeadamente na divulgação externa do Santuário do Milagre?

Já referi vários aspectos de resposta para potenciar o turismo em Santarém. Contudo, há uma enorme potencialidade para explorar no território concelhio: as próprias barreiras da cidade; vários locais no norte do concelho; as zonas de Alcanhões e Vale de Figueira; a bonita foz do rio Alviela (que se encontra abandonada); a serra de Aires e Candeeiros; etc.

O turismo desportivo e de aventura na serra, geocaching, que é um desporto que utiliza o GPS para encontrar objectos (uma espécie de Caça ao Tesouro na Natureza), o btt, o trail, as rotas ambientais como a Rota das Orquídeas, etc.

Há vários exemplos positivos que aliam turismo à prática desportiva, as corridas iniciadas pelos Night Runners, a prova de trail nas Abitureiras, que entrou no Campeonato Nacional de Trail e é organizada pela equipa Trilho Perdido.

Quanto ao turismo religioso é imperativa uma articulação com a Diocese e com as companhias turísticas que procuram o Santuário do Milagre.

PERFIL

Filipa Filipe, 30 anos, natural do concelho de Alpiarça e actualmente a residir em Santarém.
É psicóloga clínica com mestrado obtido pelo ISPA – Instituto de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida. Trabalha com a Olhar – Associação Pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental, em Lisboa e com o Lugar de Cura, em Rio Maior.
Integrou em 2015 um projecto de Iniciativas em Saúde Pública da ARSLVT com financiamento obtido através de fundos comunitários Europeus (EAA Grants) para a promoção da Dieta Mediterrânica nas escolas. Um dos principais objectivos pautou-se por combater as desigualdades nutricionais em 3 agrupamentos de escolas nos municípios de Alpiarça (Ag. Escolas José Relvas) e Santarém (Ag. Escolas Ginestal Machado e Sá da Bandeira), tendo terminado em Abril de 2017.
É militante do Bloco de Esquerda desde 2008. Integra actualmente a Comissão Coordenadora Distrital e a Comissão Concelhia do Bloco de Santarém, candidatando-se nestas eleições autárquicas à presidência da Câmara Municipal de Santarém através de uma candidatura do Bloco de Esquerda com aliança cidadã.