O Professor José Gameiro faleceu esta noite em Santarém, aos 88 anos de idade. Dedicou a sua vida à causa do desporto e do exercício físico.

O corpo estará em câmara ardente na capela das Portas do Sol a partir das 16h30 de hoje, terça-feira, e o funeral, segue amanhã, quarta-feira, pelas 10h00, para o cemitério de Almeirim.

Em Setembro, antigos alunos e muitos amigos homenagearam-no no decorrer de um almoço na Escola Superior Agrária de Santarém, uma das suas muitas ‘casas’.

Na altura foi destacada a sua extensa actividade ligada à Escola de Regentes Agrícolas, Associação Académica, Casa do Benfica de Santarém e Inatel.

“Encontramo-nos aqui porque sentimos a marca que deixou em nós”, afirmou na altura Luís Arrais, um dos promotores do encontro, dirigindo-se ao professor que marcou presença no almoço acompanhado pela filha, Rita Gameiro.

Na última entrevista que deu ao Correio do Ribatejo, necessariamente breve devido ao seu estado de saúde, José Gameiro disse sentir-se “muito contente com a homenagem”, que a sua habitual modéstia diz ter sido prestada, não a si, mas “à população de Santarém”.

Um ‘Gentleman’ que reúne consensos no desporto e na vida

No decorrer do almoço foram muitos os que quiseram partilhar momentos e tecer elogios à conduta do homem, do amigo e professor José Gameiro.

Grimoaldo Duarte recordou o que o homenageado “fez pela educação física desta terra”, considerando que “até hoje, não foi reconhecido devidamente o seu trabalho”.

José Rodrigues lembrou o “pequeno ginásio” na Banda Marcial de Almeirim e os torneios quadrangulares no ringue dos Caixeiros, que envolviam jovens do Liceu, Braamcamp, Escola Industrial e Escola Agrícola.

Num desses torneios, recorda, “envolveram-se à pancada”, e lembra o momento em que “no meio do burburinho apareceu o professor, bem no centro do ringue, sozinho, com o seu carinho, pôs tudo no sítio, devido ao respeito que todos lhe tinham”.

Seguiu-se Fernando Freitas que recordou José Gameiro, na década de 50, 60, através da prática do atletismo que, segundo o próprio, “merece também ser referência na vida do professor”.

“Em Lisboa falava-se do seu trabalho na Associação Académica e dos campeões nacionais e recordistas nacionais e ibéricos que formava”, recorda Fernando Freitas que destaca ainda a sua faceta de “gentleman”, sempre “impecavelmente vestido, de fato e gravata”.

“O facto de eu vestir hoje, neste almoço, um casaco é uma homenagem que lhe presto, pela sua elegância e modo de vestir que sempre me marcaram”, concluiu.

Antigo praticante de ginástica na Casa do Benfica de Santarém, José Serra afirmou que o homenageado o ajudou “a crescer” e “teve muita influência” na sua vida. “Cheguei a campeão nacional e o professor marcou-me muito”, disse.

Ana falou em nome “das irmãs Veríssimo”, e “toda a rua de Olivença”, ginastas de mesa alemã e tapete que aprenderam “a ser, a estar confiantes” com os ensinamentos no desporto e na vida de José Gameiro.

Dirigindo-se ao homenageado, Ana Veríssimo nota: “também hoje sou professora e foi consigo que aprendi. Obrigado por tudo o que fez de nós”, referiu.

Francisco Gameiro, recordou, por sua vez, o facto de ter sido vizinho de José Gameiro e as “corridas na rua” que ambos faziam aos seis anos de idade.

“Eu gostava de fazer o pino e o professor chegava ao pé de mim e dizia-me que não o estava a fazer bem, ao mesmo tempo que me aconselhava: “Tens de dizer ao teu pai para te inscrever na Casa do Benfica”, relembra.

“A minha primeira aula com o professor foi, assim, na rua”, nota, destacando ainda a visão humanista e o “respeito que ele tinha por todos nós”, uma transmissão de valores que, assegura, o “marcaram a sério”. “A sua postura vertical tem sido uma referência para mim ao longo da vida”, conclui.

António Rocha Pinto foi outro dos participantes no almoço de homenagem Dirigindo-se ao professor numa forma que considerou “mais pessoal”, recordou o tempo em que foi sujeito a uma intervenção cirúrgica, o que motivou que o professor, “por amizade” fosse o seu fisioterapeuta. Um tratamento “físico” mas também “pessoal”. “Durante um ano passámos muito tempo juntos, na pesca, ou a construir o meu estúdio de fotografia. Ele ensinou-me a fotografar, a ver as pessoas pela lente de uma máquina fotográfica”, recordou Rocha Pinto.

“Impulso para a vida”

Na edição de 27 de Novembro de 2015, o Correio do Ribatejo recordou 40 anos de Ginástica em Santarém e a influência de outro nome forte da modalidade, Cândido de Azevedo, sobretudo ao nível da competição.

Feitas as contas, a Ginástica de Santarém já conquistou mais de meio milhar de títulos, produziu mais de 120 Campeões Nacionais, mais de 15 Medalhas em Torneios Internacionais e 30 Ginastas em Selecções Nacionais, completam o histórico de sucesso.

Muitos dos atletas que foram pioneiros na Ginástica de Competição de Santarém passaram pelas aulas de José Gameiro.

“Os alunos da escola agrícola pegavam toiros e inventaram uma coisa que eram os saltos por cima da Mesa Alemã. Contagiaram todos para a ginástica. Tanto que em Portugal inteiro, a única classe feminina que havia era a Casa do Benfica”, disse, na altura (Novembro de 2015) José Gameiro ao Correio do Ribatejo.

“Respeitei sempre os meus alunos de uma forma incrível. Ainda hoje me comove recordar a classe dos três aos cinco anos, na Casa do Benfica, nos treinos das cinco da tarde. Eu entrava, estava tudo sentado e levantava-se tudo. Cumprimentava-os um a um com um aperto de mão”, contou ao nosso jornal.

“Se tive alguma coisa, foi a sorte de ter amizades dentro da cidade. Dos pais, dos filhos… e quando as pessoas gostam de alguém só lhe vêem as virtudes. A minha única virtude, quanto a mim, foi ter começado”, referiu.

“Na Escola Agrícola não havia ninguém, nem no Liceu… e a partir daí, fez-se algo de valioso para Santarém que evoluiu muito. Mas não foi por minha causa. Quem sofreu e deu tudo, foram os atletas, que passavam o dia inteiro a treinar”, acrescentou o professor José Gameiro, à época destas declarações, com 86 anos de vida.

“Em 40 anos, Santarém evoluiu muito ao nível desportivo à custa de uma equipa de amizades. Nunca houve rivalidades. Houve sempre simpatia e cordialidade. Tive a sorte de ter alunos excepcionais”, concluiu o professor de Educação Física e treinador de atletismo e de ginástica.

Também em 2015 e ainda no mês de Novembro, foi-lhe atribuído o Troféu Panathlon Clube de Santarém, pela “actividade profissional que este exerceu por mais de meio século no campo educativo da Educação Física e Desporto, bem como enquanto iniciador das Classes de Ginástica Educativa e da Ginástica de Exibição – Mesa Alemã – em Escolas e Clubes Desportivos da cidade, actividade essa de forte conteúdo pedagógico e didáctico, profundamente reconhecida por instituições oficiais e desportivas da cidade e por algumas gerações de jovens”.

Humanista e formador

O professor José Gameiro foi um dos impulsionadores da Ginástica no concelho de Santarém e no próprio distrito. A sua carreira como treinador começou na antiga Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, onde teve uma classe de Mesa Alemã, que chegou a representar Portugal em festivais internacionais, numa altura em que essa possibilidade era extremamente rara.

De seguida, foi treinador de várias gerações de escalabitanos, na Associação Académica de Santarém e na Casa do Benfica de Santarém.

De referir ainda o papel que teve no desenvolvimento do atletismo na região, formador de campeões nacionais e ibéricos, como foi notado no decorrer da homenagem.

Os Saraus no Liceu e no antigo ginásio do Seminário ficaram celebres e definiram uma época em Santarém.

José Gameiro foi ainda um dos fundadores da Associação de Ginástica de Santarém, da qual foi o primeiro presidente da Assembleia Geral.

A sua longa carreira desportiva, também ficou ligada ao INATEL de Santarém, onde foi responsável pelo Desporto, trazendo diversas inovações nos campeonatos de futebol, nomeadamente ao nível do policiamento, regras que ainda hoje se encontram em vigor.

Um facto recordado por Cristina Proença, funcionária da delegação de Santarém do INATEL: “O professor implementou no campeonato distrital de futebol de 11 do Inatel não haver forças de segurança presentes nos jogos, sendo esta assegurada pelas próprias equipas que tinham de assinar um termo de responsabilidade. Caso falhassem levava ao afastamento dos campeonatos,” explicou.

O Professor José Gameiro faleceu esta noite. Tinha 88 anos de idade. O corpo estará em câmara ardente na capela das Portas do Sol a partir das 16h30 de hoje, terça-feira, e o funeral, segue amanhã, quarta-feira, pelas 10h00 para o cemitério de Almeirim.

À família enlutada o Correio do Ribatejo endereça as mais sentidas condolências.