Tal como estava anunciado – e nós amplamente divulgámos! – teve lugar no Campo Pequeno, em Lisboa, a primeira edição do Bullfest, um festival temático que pretendeu concentrar as atenções sobre a Festa dos Toiros, aglutinando em seu torno diversas expressões culturais e artísticas de raiz tradicional e popular, como o fado, o cante alentejano, o teatro, a música, a pintura e o cinema.

Apesar de ter sido consensualmente acolhido pela gente dos toiros, convirá não perdermos de vista que as opiniões quanto ao projecto e quanto ao formato da sua concretização não foram unânimes, o que é devidamente justificado por uns e por outros em atitudes respeitáveis, frontais e sérias. Pessoalmente, não podemos emitir a nossa opinião – que, naturalmente, de pouco valeria – porque não nos foi possível estar presentes, pelo que reflectimos sobre a opinião de conceituados taurinos, que consideramos e cuja crítica respeitamos.

Desde logo a designação escolhida para o evento suscitou críticas, e neste aspecto concordamos com os que se manifestaram contra a opção de um termo estrangeiro– nada taurino! – o que parece significar que temos medo de nos assumirmos chamando os bois pelos nomes.

Esta cedência a facilitismos linguísticos, parecendo querer esconder a essência do evento, e os pressupostos que o justificaram, não nos parece feliz… Propositadamente, não emitimos esta opinião em nenhum momento anterior à realização do festival para não sermos acusados de estarmos contra o Bullfest! Infelizmente, vivemos um tempo em que, ao contrário do que deveria acontecer, a tentação de encontrar adversários dentro das hostes aficionadas é maior do que em conseguir conviver com as diferenças de opinião, parecendo não acreditar que a diversidade é uma riqueza e não um obstáculo.

Mas, tal como vão as coisas, a moda passa por se criarem blocos antagónicos, em que de um lado estão os proclamados protectores e os seus protegidos e do outro os supostos acusadores e as vítimas.

Quem não seja – declaradamente, servilmente e acriticamente – por nós, é, com toda a certeza, contra nós! E, então, é ver os bloguistas taurinos (actual versão da crítica taurina de outrora) a digladiaremse em torno de quem lhes possa assegurar algum poleirinho, de preferência, confortável, mediático e a custo zero, ou, melhor ainda, a troco de algumas contrapartidas, porque a vidinha custa a todos. Ao que nós chegámos!

Depois, claro, zangam-se as comadres e vêm à luz da ribalta “verdades” que não deveriam vir, assanham-se as “ciumeiras” do costume, estala o verniz e tecem-se afrontas ou comentários simplesmente desnecessários. Não nos parece que seja por aí o caminho!

Mas, voltando ao Bullfest… Hugo Calado, do toureio.pt, assumiu, com louvável frontalidade, algumas críticas ao formato do festival e à falta de capacidade de congregar novos públicos ao Campo Pequeno, pois, excepção feita às crianças, o resto era quase tudo caras conhecidas de todos os dias, o que, eventualmente, decorrerá das opções tomadas ao nível da promoção do Festival.

Diz-nos Hugo Calado que “No interior do Campo Pequeno apenas destaco as demonstrações de toureio, o documentário da Torrinha e o fado, porque de resto…resumia-se a umas bancas pequeninas de venda de coisinhas e muito merchandising da marca Touradas. O público apenas começou a chegar próximo da hora do festival. Este evento precisava de um conjunto de atividades em volta da praça e no seu interior, algo parecido com a festa de campo que ocorreu na Torrinha, lembram-se? Aqui poderia ser parecido, mas, com um ar mais urbano. Quiçá fosse mais interessante.

Não sei quanto tempo demorou a preparar este evento, certamente algum, mas da maneira como foi executado, e muita gente o comentava, parece que foi feito em cima do joelho e direcionado para vender merchandising e fazer fliers e bandeirolas da marca Touradas!” Porém, Miguel Alvarenga, antes contundente crítico da Prótoiro e da direcção taurina do Campo Pequeno, assume, agora, uma posição frontalmente diversa. Para este crítico taurino, dinamizador do Farpas Blogue, “A Festa de Toiros saiu ontem [sábado, 18 de Fevereiro] mais engrandecida e o Campo Pequeno renovou a sua imagem de classe e de importância a nível internacional, voltando a marcar a diferença, mercê da brilhante iniciativa da Federação Prótoiro com a realização de enorme sucesso que foi o primeiro Festival Bullfest – que alguns criticaram de início, mas que ontem tiveram por fim que engolir como um êxito enorme. Houve inovação, a começar pela designação “estrangeirada”, mas que apoiei desde a primeira hora – inovar faz falta e não podemos andar sempre a olhar só para o umbigo, há que abrir as portas do futuro e quanto mais depressa, melhor! – que foi dada ao Festival da Cultura Portuguesa.

Há que fazer justiça ao sucesso – enorme – desta jornada de apoio à Tauromaquia e reconhecer – e aplaudir de pé – todo o trabalho desenvolvido pela Prótoiro para que este dia de ontem fosse a jornada triunfal que foi.”

Enfim, duas opiniões de pessoas favoráveis à valorização da Festa Brava, contudo, com perspectivas bem diferentes quanto ao mérito desta iniciativa. Registe- se que o site Touroeouro, sempre tão dinâmico e activo, ignorou esta realização e andou por pueblos espanhóis atrás de Diego Ventura. Mas, mesmo distante, não deixou de mandar a sua “farpa”: “Não vale a pena inventar… Quando há cartéis bem montados, o público comparece como se não houvesse amanhã… qualquer semelhança com o que aconteceu noutros palcos da península ibérica, este mesmo fim-de-semana, é resultado de puro delírio…”. Tanta acrimónia… Porque será?

Para nós, a realização do Festival, motivando a deslocação de largas centenas de aficionados ao Campo Pequeno, é em si mesma e desde logo um sucesso, talvez sem o impacto pretendido e a mediatização desejada. Registe-se o facto de não termos dado conta de qualquer cobertura televisiva ao evento… Noticiassem a realização de uma manifestação dos anti-taurinos e veriam como os diversos canais televisivos não desperdiçariam a oportunidade da notícia. É o que temos… Os anti-taurinos fazem lobbies e os taurinos dividem-se! Assim, não vamos lá!

Ludgero Mendes