entrevista ultimaNelson FerrãoO Festival Internacional de Teatro e Artes para a Infância e Juventude (FITIJ) decorreu até 9 de Outubro, em vários espaços da cidade de Santarém, com extensões a Almeirim, Coruche e Lisboa. Nelson Ferrão, da organização do evento, traça, nesta entrevista, as linhas gerais de um festival que já foi considerado uma das mais importantes manifestações culturais da zona centro do País.

Que expectativas é que a organização tem para esta edição do FITIJ? 

A expectativa é que o público e os parceiros reconheçam a correcção do trabalho feito, por um conjunto de voluntários com capacidade em juntar recursos e que gostam que no seu território possa haver olhares artísticos novos e maneiras de pensar diferentes no mundo actual. Espera- se que muitas pessoas participem nas actividades e que as/os professores/ as, as crianças e as escolas possam desfrutar das actividades apresentadas que raramente estão à disposição do concelho (com a vinda de escolas das freguesias às actividades FITIJ.

Como foi desenhada a programação deste festival? 

Nestes últimos dois anos, o novo modelo de programação assenta no entendimento de uma mostra artística com o foco central no teatro para a infância e juventude, mas cabendo outras áreas artísticas e escalões etários, assumindo-se um carácter supletivo da intervenção artística no concelho. Fazer cada passo com o parceiro que também quer… Estimula- se que esta Montra da acção cultural seja aproveitada pelos diversos agentes empreendedores e parceiros, convertida num pólo anual de atracção concelhio e suportado por sete linhas de acção cultural, tentando inovação artística e envolvência, com os recursos existentes – espectáculos e extensões regionais FITIJ, oficinas Criançando, exposições, formação, fórum FITIJ, arte urbana, animações imprevistas… Santarém precisa de rua, de outros olhares, de mundo…

É que estar em contacto com a arte é formar sujeitos críticos e actuantes, embora isso seja considerado muitas vezes uma ameaça…

O FITIJ já foi considerado uma das mais importantes manifestações culturais da zona centro do País. Foi difícil, após um interregno de quatro anos, voltar a por de pé este festival?

Digamos que nem fácil nem difícil… foi fazer e ir cumprindo as etapas necessárias mínimas com um conjunto mínimo de recursos para que o evento se efectivasse, embora haja necessidade de haver mais e outros voluntários (sobretudo mais jovens) para que o empreendimento FITIJ se desenvolva e não acabe. Há ainda muitas potencialidades por explorar e envolver a população… mas é preciso mais apoios e parcerias, para ter outra escala….

Que leitura faz do panorama cultural da cidade? 

Abordagem complexa e demorada… vislumbra-se não ser simpática. Mas, não… Bem, no concelho, os agentes vão fazendo o trabalho que entendem fazer. Há muitas vozes em acção, o que é bom (mas muitos egos excessivos e circulares também…). Contudo, depois de longas conversas, uma forte linha defende que Santarém necessita ser confrontada com outros olhares, mais diversos e arrojados, consequentes para destinatários mais alargados, com a envolvência dos agentes locais e dos públicos mais disponíveis… atualmente vive-se um bom momento de afirmação local, mas a “ler” com precaução… faltarão novos olhares externos, com capacidade de produzir efeitos multiplicadores e com valor acrescentado. Não se nota tradução disso. Dinheiro? Talvez também, mas não é só…

E do envolvimento dos agentes culturais? 

Bem…na linha anterior, cada um continua a fazer as suas acções e tem faltado mundo, modernidade ou/e contemporaneidade. É legítimo, mas o confronto de novas ideias geram ideias novas e também a hipótese de alargamento e chegada a novos interessados…no caso dos agentes mais novos é demasiado evidente que têm muita falta de memória e de estudo sobre o que acontece à sua volta para ajudar o pensamento actual, o que não é fácil. Porém, afirmam-se agora lutas e acções novas, inéditas, mas o que se constata são assuntos não-problema, banais, sem contexto e textura estética e  filosófica dos problemas contemporâneos e da região, muito incompletos… embora seja uma das condições das sociedades pósmodernas; mas o concelho precisa de outras propostas de envolvimento, partindo do estádio de cada “comunidade”, o que é mais difícil…

Lema da vida? 

Há muitos lemas, mas uma vertigem de justiça e correcção tem sido preocupação, falando com todos, mesmo com os que não gostam de nós.

Viagem de sonho?

Sonho?

Talvez haja, mas ainda vou a caminho….

Livro de cabeceira?

Vários. Mas “Os Lobos não Usam Coleira”, de Carlos Vale Ferraz/Carlos Matos Gomes, porque cada indivíduo tem a sua caixa preta… esse é o nó górdio.

Download PDF