IMG_9345 ritaRita Correia vive e trabalha em Santarém e, desde 2005, que se dedica ao patchwork: uma paixão que lhe vem desde criança, das “mantas de trapos” da sua trisavó.

Gosta de criar e tem uma “necessidade compulsiva” de conjugar cores e padrões geométricos. Nestes dez anos já fez centenas de peças, almofadas, mantas e quadros de diversos tamanhos formatos e feitios que encontraram caminho em várias casas espalhadas pelo país e pela Europa.

Como avalia a sua participação no In.Artes?

Apesar de estarmos a meio do projecto, o balanço que faço é bastante positivo. É a primeira vez que mostro o meu trabalho na minha cidade e o feedback que tenho tido é bastante encorajador. Por outro lado, creio que a minha participação no In.Artes é uma mais valia para a diversidade do projecto colectivo, uma vez que não me considero uma artista, mas sim uma artesã.

De que forma estruturou a sua exposição?

No espaço que me coube, o nº44 da Rua Capelo e Ivens, funcionou durante décadas uma antiga retrosaria conhecida por todos na cidade: a Casa Nobre. Optei, em conjunto com os artistas que partilham o espaço comigo, por fazer uma pequena homenagem ao passado da loja que ocupamos. Assim, parte da loja tem uma pequena exposição de máquinas de costura antigas, revistas de lavores antigas e outros objectos relacionados com costura e artes manuais. Todos esses objectos fazem parte do meu espólio pessoal, que herdei de avós, bisavós e tias. Tenho ainda alguns objectos de patchwork bastante antigos, a fazer contraponto com a modernidade do meu trabalho.

Como é a experiência de partilhar uma ‘galeria de arte’ num sítio improvável e como tem sido a receptividade do público?

Tem sido uma experiência muito interessante. Há muitas pessoas que entram na loja sem perceber muito bem o que está ali a acontecer. Outras entram e pensam que voltou a ser uma retrosaria e perguntam-me se vendo tecidos ou linhas! Por outro lado, há pessoas que vêm com o folheto do In.Artes na mão e sabem bem ao que vêm. Em todos é comum os elogios que fazem ao espaço e a pena que demonstram em que esteja fechado há tantos anos.

Qual o aspecto mais positivo que destacaria do projecto?

Ainda estamos a meio deste projecto, mas creio que a grande mais valia que ele conseguiu até agora, foi a de trazer as pessoas para a rua, e de estas se (re) encontrarem com a cidade.

E o aspecto a melhorar?

Gostaria de ver mais variedade nos géneros artísticos apresentados. Por outro lado, acho que a cidade não se preparou devidamente para este evento e para os turistas que nos visitam nesta altura do ano. Santarém está uma cidade suja e pouco cuidada. E não me refiro apenas às responsabilidades inerentes aos serviços de urbanismo, higiene e limpeza; as pessoas têm muito pouco civismo e o cartão de visita que estamos a passar nesse sentido não é dos melhores. É preciso limpar esta cidade, voltar a dar-lhe luz e vida, tratá-la com carinho e ter orgulho nas nossas ruas.

Santarém é, na sua opinião, uma cidade criativa?

Acho, sinceramente, que Santarém é o oposto de tudo o que é criativo. É uma cidade conservadora, tradicional e pouco arrojada. Tudo o que é novo tem imensa dificuldade de implementação, sejam novos hábitos, novos conceitos, novos espectáculos, novos tipos de comércio ou restauração. Santarém parece mais uma pequena aldeia do interior do que capital de distrito. É uma cidade agarrada a um passado, mas nem sabe bem que passado é esse. Por outro lado, Santarém é uma cidade que não tem sabido tirar proveito do seu imenso património e da sua história riquíssima. Parece um contra-senso, mas Santarém parece ter ficado parada num tempo difícil de identificar. Mas como me considero uma pessoa optimista e gosto da minha cidade, não quero deixar de frisar que acredito que tudo isso pode mudar. Santarém tem tudo para desenvolver o potencial criativo que encerra! É preciso começar por algum lado, e o projeto In.Santarém foi uma pedra basilar. Esperemos que tenha repercussões, quanto mais não seja, na maneira das pessoas olharem a sua cidade.

E em termos de apoios para artistas poderem crescer?

Eu diria que está tudo por fazer nessa área, mas não é só em Santarém. Infelizmente é um mal geral no país. Fazem falta mais escolas artísticas (públicas, evidentemente) e locais adequados a residências artísticas e projectos de intercâmbio artístico-cultural. Acima de tudo, faz-nos falta, na cidade e no país, perceber que a arte e a cultura são bens tão essenciais como a saúde e a educação. Precisamos de mais museus e centros de cultura, para educar as massas a terem um olhar crítico, e precisamos de ateliers e espaços de residências artísticas para que possa haver criação.

É possível viver-se, em Portugal, da criação artística?

Eu diria que é quase impossível. Os poucos que conseguem fazê-lo têm outras estruturas que lhes permitem viver e criar o seu trabalho. A maioria dos artistas, seja de que área for, têm sérias dificuldades em manter um nível de vida decente, vivendo apenas do seu trabalho criativo. A precarização do trabalho é ainda mais gritante no meio artístico. Falta ao nosso país uma verdadeira política de cultura.

*Texto publicado em edição impressa de 28 Agosto