Carlos Bajanca“…os paços reais (da Porta de Leiria) eram rodeados, a norte, de uma barbacã A barbacã ocidental prolongava-se até ao Postigo da Carreira… Estas barbacãs eram pertença dos reis,…”

BEIRANTE, MARIA ÂNGELA, SANTARÉM QUINHENTISTA, p. 35.

Segundo a leitura de uma carta de venda de Março de 1229, nesta data, a Vila Alta já se encontrava completamente protegida por muralhas. Com uma extensão total de 33 hectares, as muralhas protegiam as oito freguesias existentes: Santa Maria da Alcáçova, S. Martinho, Santa Maria de Marvila, S. Nicolau, S. Salvador, S. Julião, Santo Estevão e S. Lourenço.

Nos finais do século XIV, perante as lutas de D. Fernando com Castela, a Alcáçova de Santarém foi reforçada e levantada uma nova cintura de muralhas destinada a proteger os bairros da Judiaria e da Mouraria, correspondendo às denominadas Cercas Fernandinas.

Para além das muralhas, também as cercas dos antigos mosteiros e conventos localizadas extramuros, a norte e a poente do planalto, favoreciam a defesa do aglomerado, encurralando os invasores entre esses muros e as muralhas.

Ligando as muralhas da Vila Alta com Seserigo (atual Ribeira de Santarém) e Alfange desciam as encostas duas couraças, de grande importância militar. A primeira foi construída no séc. XIII, sobre o Vale da Atamarma. A segunda couraça, com a extensão de 250m, descia a partir do Castelo de Valada (situado próximo do atual cemitério) até rodear todo o outeiro de Alfange. Constituía “um alinhamento guarnecido com torreões” permitindo a defesa e o apoio no abastecimento de água potável, em caso de cerco militar.

Segundo Mário Cardoso, o perímetro nascente da Vila planáltica, sobranceiro às encostas do antigo Vale de Torres, nunca foi protegido por muralhas, porque as íngremes encostas aqui existentes impossibilitavam investidas neste perímetro. Além disso, Seserigo e Alfange estavam dotados com sistemas defensivos próprios, face à importância e valor económico-estratégico destes aglomerados. Em Seserigo foi mandado levantar por D. Sancho uma muralha provisória de madeira, que não protegia todo o núcleo da Ribeira. Posteriormente, em 1184 foi levantada uma cerca definitiva, que quase englobava a totalidade da Ribeira, permitindo assim, a contenção da margem direita do Tejo.

Também o cais de Alfange foi protegido com uma “muralha abaluartada em toda a frente do rio”, que segundo Jorge Custódio existiu até 1860.

Atualmente, para além do “castelo” das Portas do Sol e de alguns troços pontualmente localizados a norte do Centro Histórico, nada mais resta da antiga linha muralhada.

Carlos Bajanca

*Texto publicado em edição impressa de 12 de Junho