Carlos BajancaNo início da Idade Média, do lado Sul da antiga Vila de Santarém sobressaem quatro vãos ao longo da linha de muralha: a Porta de Manços, o Postigo de Stº. Estevão, o Postigo de Vale de Rei e a Porta de Valada. Deste grupo destacava-se a Porta de Manços orientada para o Rego de Manços, que correspondia ao atual Bairro dos Combatentes, na época, principal zona agrícola abastecedora da urbe. Pela Porta de Manços, que se localizava na atual Rua Arcos Manços, efetuava-se o principal abastecimento à Vila dos produtos agrícolas, que pela Rua Direita da Porta de Manços, atual Rua João Afonso, abasteciam os mercados da Praça da Vila, atual Praça Visconde Serra do Pilar.

A Porta de Manços assume o seu esplendor a partir do século XIV, com a construção dos Paços do Bispo de Lisboa (1372), correspondendo ao atual edifício do I.S.L.A., antigo Hospital de Jesus Cristo, junto da Ermida da Madalena, aqui existente desde o séc. XIII. Assim se define um recinto fronteiro à Porta de Manços, cuja importância se lhe atribuiu a denominação de Rossio da Vila, atual Largo Cândido dos Reis. Na época, este espaço ganha vínculo urbanístico no acesso poente da urbe. Aqui se cruzavam várias estradas e caminhos, alguns rurais, outros ligavam entre si as diversas portas e postigos existentes ao longo da linha sul e poente da muralha, ou ainda, caminhos provenientes dos campos, vales circundantes e áreas agrícolas, que desde as épocas mais remotas rodeavam o citado Rego de Manços.

A Porta de Manços, posteriormente conhecida como Arco do Bom Sucesso, foi destruída no século passado, perdendo-se um património “com o argumento cínico de assim se evitarem cenas escabrosas”.

Relativamente aos postigos, Santo Estevão e Vale de Rei, localizavam-se na periferia do planalto, voltados para os terrenos de encosta denominados Vale de Rei. O Postigo de Stº. Estevão localizava-se no cruzamento da atual Travessa do Postigo de São Estevão com a Avenida António dos Santos.

O Postigo Vale do Rei existia na proximidade do cruzamento da atual Travessa dos Capuchos com a atual Avenida António dos Santos. Aqui se localizavam as “carniçarias” e mais a sul o “curral do gado”, que terminava junto da Porta de Valada. Esta Porta era assim chamada por dar acesso à estrada que ligava a Vila aos campos de Valada. A Porta de Valada, também conhecida pela Porta da Madre de Deus, era uma porta acastelada, por influência do Castelo Valada implantado na zona do atual cemitério. Este castelo encontra-se mencionado em documentos provenientes da Idade Média, como “antigo e muito degradado”, razão pela qual existem poucas referências sobre a sua existência.

        Carlos Bajanca

*Texto publicado em edição impressa a 8 de Maio de 2015

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