Carlos BajancaO conhecimento do conjunto fortificado da antiga Vila de Santarém permite compreender melhor a evolução da sua malha urbana. Era um conjunto acastelado constituído por, muralhas, torres, portas e postigos, com um perímetro de 8.823 metros, que delimitava uma área de 37 hectares. Em comparação com outras fortificações portuguesas da época medieval, constitui um interessante sistema de engenharia militar, com características verdadeiramente invulgares.

O perímetro muralhado resultou da necessidade de proteção da urbe, que se justificava pelo seu valor estratégico e militar, porque na época se assumiu como charneira de transição entre o norte e o sul de Portugal. O conjunto de cercas e muralhas levantadas consolidou uma estrutura militar complexa, não concentrada, considerada na época como inexpugnável. A sua conceção adaptou-se sabiamente às características morfológicas do terreno e ao perfil polinucleado do aglomerado.

Durante a sua construção podemos assinalar três épocas distintas. A primeira, de origem árabe, consistia na linha de fortificações da Alcáçova, como sistema militar de consolidação das estruturas defensivas anteriores, provenientes da Idade do Bronze e do Ferro. Ainda em 1184, apenas a Alcáçova era cercada por muralhas, constituindo um posto de sentinela do território.

Após a conquista cristã, o elevado crescimento populacional da urbe excede os limites da Alcáçova e o aglomerado torna-se alvo fácil de eventuais ataques exteriores. Resulta assim, a segunda fase de construção da linha de muralhas, denominada por Cerca da Vila ou Muros de Marvila. Esta Cerca passava pelo alto da encosta da Atamarma, seguindo junto à Praça da Vila (atual Praça Visconde Serra do Pilar), continuando ao longo da atual Rua Serpa Pinto, contornando o Adro da Igreja do Salvador (outrora existente no Largo Padre Francisco Nunes da Silva, atualmente extinta), passando pela antiga Porta das Figueiras e terminando na Porta de Leiria. Do lado poente, a muralha contornava o Castelo da Vila até ao Bairro do Milagre e daí seguia até ao extremo do Pereiro, atingindo o local da Porta da Valada e a respetiva fortificação outrora existente, próximo do atual cemitério. Daqui descia a encosta, como couraça até rodear todo o outeiro de Alfange.

A terceira fase de construção da linha de muralhas remonta aos finais do século XIV, quando D. Fernando se envolve em várias lutas com Castela. Nesta altura reforçam-se e levantam-se novas cercas, em particular para proteger os bairros da Judiaria e da Mouraria, correspondendo às denominadas Cercas Fernandinas, completando-se assim a estrutura do conjunto muralhado de Santarém.

Carlos Bajanca

*Texto publicado em edição impressa a 22 de Maio de 2015

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