entrevista ultimaFernando Veríssimo fascinou-se com as artes plásticas muito novo, mas a pintura aparece já tarde na sua vida. Reconhece a influência do seu amigo e pintor José Catrola e diz-se um “experimentalista, no sentido de arriscar fazer”. Um “aventureiro” que chegou a tatuar os seus camaradas fuzileiros.

Como e quando se descobriu como artista plástico?

Lembro-me, muito miúdo, de ficar fascinado com as ilustrações que via nos livros. A pintura aparece tarde, já eu adolescente e o leitmotiv pode ter sido uma ou outra exposição que tenha visto em Lisboa. Nesta altura a capital (e a Gulbenkian) ficavam longe… era quase uma odisseia. Dessa época recordo-me de ver na Fundação obras do expressionista holandês Karel Appel, “pintadas” directamente com o tubo sobre a tela, e achar um enorme desperdício de materiais.

Que influências mais importantes recebeu? 

Comecei por receber a influência do meu amigo e Pintor, José Catrola que, como professor, (para além de me ter ensinado a perspectiva cavaleira e a usar o tirar-linhas sem borrar o papel…) foi muito importante para a minha formação como pessoa ao saber reconhecer o meu gosto pelas artes-plásticas. Embora uns bons furos acima, tratou-me sempre como um parceiro (obrigado Zé António!). Mais tarde descobri os clássicos (através dos livros, claro), os mestres do claro-escuro, os velhos impressionistas e [já o com o gosto refinado] a obra plástica do escultor Chillida (que descubro, curiosamente, numa entrevista publicada há muitos anos no JL)

Sente necessidade de passar para a tela questões actuais da nossa sociedade?

Não creio ser mister do artista plástico ilustrar a actualidade, julgo até não ser essa a sua missão porque a sociedade está perfeitamente espartilhada em grupos de interesses. Com o evoluir dos tempos e com o acesso à informação em tempo real, resta-nos outras linguagens. Repare-se, Botero pintou os aviltamentos em Guantánamo e ao fazê-lo tornou esta questão menos efémera convertendo-a em pintura, mas também é verdade que nem todas as formas de expressão plásticas se prestam para ilustrar a actualidade.

Caricatura, tratamento de imagem, pintura, desenho… em que estilo se sente mais confortável? 

Sempre fui experimentalista, no sentido de arriscar fazer. Aventurei-me quando aceitei ilustrar uma ou outra coisa, quando peguei no martelo e tentei esculpir, quando mostrei o que tentava passar para a tela, quando – sem nunca ver fazer – tatuava os meus camaradas Fuzileiros. Arrisquei quando e com a novidade dos computadores, tentei fazer cartoons, sendo suposto obter destes e profissionalmente, apenas desenho gráfico, etc. Digamos que me sinto bem a criar, e que a expressão dessa criatividade [para mim] assenta muito no desenho como ferramenta maior para mostrar um conceito.

António Inverno disse um dia, por graça: “Não morro, nem que me matem!”. É o que vos espera enquanto artistas? 

Sim, lembro-me de ouvir dele essa expressão. Conheci o António (Inverno) nos anos 80, porventura no auge da sua projecção como serígrafo e promotor das Artes. Com ele aprendi os rudimentos da serigrafia artística (foi um homem generoso, que partiu cedo). Os artistas são apenas os obreiros, o que fica destes (de nós, afinal) é a obra. O tempo ditará o veredito; se, morto o artista, perdurará a obra.

Um artista plástico pode viver somente das suas criações em Portugal? 

Alguns vivem do seu trabalho como artistas, mas não estou certo de que vivam bem. O meio é tão competitivo como qualquer outro e o que tiver mais armas, o que for mais versátil, terá mais hipóteses de viver exclusivamente das suas criações e não apenas em Portugal.

Como avalia a sua participação no In.Artes, em Santarém? 

A iniciativa é singular e a segunda edição, que ainda decorre, é fruto do sucesso da primeira. A visibilidade que é proporcionada aos artistas (nos quais me incluo desde o início) é uma mais-valia que não devemos desprezar. Santarém está de parabéns.

Que projecto tem agora em mãos? 

Existe, latente, uma preocupação não figurativa, enquadrada no que podemos designar de expressionismo abstrato. No fundo é contrariar a figuração e encontrar nas manchas e nos ritmos da cor a emoção (e a alma) da pintura.

Lema de vida? 

Francis Bacon, afirmava que “a vida não tem sentido, mas damos-lhe sentido enquanto existimos” (talvez seja por aí…).

Viagem de sonho? 

Era uma viagem em flashback. Gostava de ver Rembrandt a pintar a Lição do Doutor Tulp. Agora a sério; contentava-me em ir a Roma… uma semana, para ver aquelas pedras todas.

Prato preferido? 

Sopa da Pedra (claro).

Livro de cabeceira? 

(Há livros que nos tiram o sono…) Reli à pouco uma biografia de Picasso (Jean-Paul Crespelle/ CL) que tinha tanto de genial como de sacana. Revistas da National Geographic, serve?