Há muito tempo que estava para ir aos toiros a Sousel em segunda-feira de Páscoa, mas, por uma ou outra razão, ainda não tinha conseguido cumprir este desiderato, que mais se impõe a quem tem o ofício de escrever sobre tauromaquia em Portugal. Apenas porque Sousel é um caso muito singular na nossa tauromaquia…

Nesta airosa vila alto-alentejana é tradição em segunda-feira de Páscoa o povo reunir-se em romaria na Serra de S. Miguel e integrar-se nas cerimónias em honra de Nossa Senhora do Carmo, nomeadamente na missa e na procissão em redor da igreja, enquanto, a par desta manifestação de fé católica, os terrenos nas imediações começam a encher-se de grupos de familiares e amigos que ali degustam as iguarias culinárias do borrego, seja em ensopado, assado no forno ou de outras formas. Actualmente, com a participação de centenas de pessoas que se juntam nesta tão popular romaria, que termina com a tradicional tourada, os petiscos já são mais diversos, mas, a finalidade – o convívio entre todos – é o prato principal nesta tão interessante festa popular. O dia estava excelente, ameno, ensolarado e sem ameaças de chuva, o que foi determinante para mais um grande sucesso. Menos gente do que em anos anteriores, diziam-me, mas, mesmo assim uma grande festa.

À parte deste tão agradável convívio, onde encontrámos tantos e tão bons amigos, a corrida decorreu num ambiente festivo, nem sempre compatível com as exigências dos aficionados mais puristas, mas perfeitamente consentâneo com o espírito da própria festa.

Em praça estiveram os cavaleiros Marco José, Paulo Jorge dos Santos e “Parreirita Cigano” e os Grupos de Forcados Amadores de Montemor e das Caldas da Rainha, que enfrentaram reses da ganadaria de Silva Herculano, que cumpriram, na generalidade, e estavam bem apresentadas. As bancadas de sombra estavam praticamente cheias e as de sol estavam muito compostas.

Meia casa forte… Marco José é um cavaleiro que já tem muita experiência e, apesar de não ter conseguido impor-se como figura, tem o seu posto consolidado e vê-se com muito agrado. O início de temporada é sempre mais difícil, na medida em que os cavalos ainda estão um pouco “avacados”, mas, o labor do marialva caldense houve-se a contento, especialmente no quarto toiro da tarde, frente ao qual andou mais repousado e logrou colocar vistosa ferragem. No final das suas actuações foi muito aplaudido. Paulo Jorge dos Santos tem recursos técnicos e artísticos para maiores compromissos, como tantas vezes se lhe reconhece, porém, a maioria dos nossos empresários não pensa assim, pelo que o cavaleiro de Vila Franca actua com mais frequência em ruedos espanhóis, o que é notório no seu toureio, que não deixando de respeitar os cânones marialvas, está impregnado de alguns detalhes que tanto agradam a “nuestros hermanos”. Paulo Jorge andou em plano satisfatório na lide do seu primeiro oponente, porém, foi especialmente no seu segundo que evidenciou as boas maneiras que lhe apreciamos, pautando-se pela boa colocação da ferragem, mais certeira, e culminando sortes mais correctas, essencialmente pelos terrenos que pisou. Também o público de Sousel o distinguiu com calorosas ovações.

“Parreirita Cigano” é um jovem cavaleiro praticante – já com data marcada para o seu doutoramento, que se aguarda com expectativa – que tem, necessariamente, que evoluir em alguns domínios técnicos e artísticos. Exibe muita valentia e vontade, mas carece de melhor entendimento sobre as reses que enfrenta, e que deverá saber aproveitar melhor. O primeiro hastado do seu lote mereceria melhor lide, mas o jovem cavaleiro cartaxense não encontrou o caminho aconselhado. Melhorou substancialmente na lide do que encerrou a corrida, sobretudo nos derradeiros ferros em que deu melhor constância da sua potencialidade, agradando ao conclave pela alegria e correcção com que cravou os ferros de adorno.

A forcadagem esteve em bom plano, não complicando o que não se afigurou de maior dificuldade. Pelos Amadores de Montemor foram solistas Vasco Ponce, ao primeiro intento, António Calça e Pina, à segunda tentativa, e João Vacas de Carvalho, também à primeira, e pelos Amadores das Caldas da Rainha André Martins consumou a sua sorte apenas ao terceiro intento, enquanto Sebastião Manuel e José Maria Abreu se fecharam galhardamente à primeira.

Direcção atenta e correcta de Marco Gomes, assessorado pelo médico veterinário João Santana.

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