Estamos a despedir-nos de mais um ano civil, posto que o ano taurino – época ou temporada, de acordo com a gíria – já terminou em Dia de Todos os Santos. Olhamos para o tempo que passou e questionamo-nos sobre o que teve o mérito de perdurar na nossa memória para história futura. Diz-se dos homens que só morrem verdadeiramente quando são esquecidos, o mesmo se poderá dizer, mutatis mutandis, a propósito dos fastos taurinos, pois só perdurará na nossa memória aquilo que teve o condão de nos fascinar, ficando gravado na história pela transcendência do gesto ou do momento.

Se nos questionassem sobre o que recordamos com maior satisfação da temporada finda, teríamos dificuldade em eleger entre meia dúzia de situações… meia dúzia, apenas. Pois, muito do que nos foi dado ver esquecemo-lo num ápice. Foi demasiado rotineiro, repetitivo, sensaborão, previsível, medíocre… e por aqui ficamos, pois, se prosseguíssemos na adjectivação correríamos o risco de sermos presunçosos ou desagradáveis, e não o queremos ser. Nem uma coisa, nem outra.

A arte tauromáquica e a profissão de Toureiro vivem de rasgos, de momentos de excelência, de gestos indeléveis na vida de quem os protagoniza. Para ficar na história é preciso mais do que andar benzinho, do que não estar mal ou de que corresponder às expectativas… Gravar o nome de um Toureiro em letras de ouro na História da Tauromaquia não é à base de lides repetitivas, sensaboronas, com quase nenhum toureio e muitas voltas e voltinhas à mistura… umas a cavalo e outras a pé.

Meus Senhores, não é Toureiro quem quer, mas, sim, quem pode!

Um Toureiro é alguém que pelo seu valor, pela sua arte, pela sua técnica e pela sua classe atinge um tal nível que o coloca em plano inacessível ao comum dos mortais e até de muito difícil acesso aos seus pares. Quando analisamos a história taurina recente, em Portugal ou em Espanha, pois, o fenómeno é idêntico, lembramo-nos de uns quantos Toureiros e se temos o prazer de estar em tertúlia com amigos aficionados uns recordam uns quantos nomes e outros resgatam das leis do esquecimento ainda mais uns poucos e, concluímos, que muitos foram os que tiveram o gosto de ver o respectivo nome anunciado em cartazes taurinos, mas Toureiros, afinal, foram apenas alguns…

Analisamos a estatística da temporada e quantos toureiros, cabeças de cartaz, se apresentaram em público até cinco vezes em toda a temporada?

Para não ferirmos susceptibilidades, socorremo-nos da realidade espanhola, e então os resultados são os seguintes: Rejoneadores – Num total de 147 toureiros, 82 actuaram cinco ou menos vezes em toda a época e apenas 5 actuaram em mais de 30 corridas; Matadores – Num total de 356 toureiros, 225 actuaram em cinco ou menos vezes e apenas 12 actuaram em mais de 40 corridas; Novilheiros – Num total de 300 toureiros, 237 actuaram em cinco ou menos novilhadas e apenas 7 actuaram em mais de 20 novilhadas. Para melhor compreensão do que queremos deixar claro, os lideres de cada escalafón apresentaramse as seguintes vezes: Pablo Hermozo de Mendoza, 79 corridas; López Simón, 71 corridas; e Manolo Vanegas, 28 novilhadas.

Estamos a entrar em mais um ano, o que, simbolicamente, nos convida a formular votos e a traçar caminhos. Para quem sonha em ser toureiro – cavaleiro, matador ou bandarilheiro – o limite é o céu, e ainda bem que assim é, porém, todos temos, ou devemos ter, a consciência de que Toureiros, no pleno e justo sentido do termo, poucos o conseguirão ser. Muitos darão o melhor do seu esforço para tentar cumprir o seu sonho, sabendo-se como é tão difícil atingi-lo, mas ainda há os que por muito que queiram nunca o conseguirão alcançar. Exactamente porque para se ser Toureiro tem que se ser feito de uma matéria muito especial…

Sonhar não é proibido, e como escreveu António Gedeão, “sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança…”, mas, pelo caminho muitos vão sendo ludibriados com falsas opiniões e interesses abjectos, e o Aficionado tudo come e tudo paga. Ou talvez não, que os tempos vão mudando!