O artista plástico e estudante de psicologia João Maria Ferreira está a orientar as aulas do “INcluir – OficINas para todos e para cada um”, projecto promovido pelo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santarém, que se propõe combater o estigma da doença mental através da arte. “Tem sido uma experiência fantástica, de um crescimento humano tremendo”, diz ao nosso Jornal João Maria Ferreira, destacando a forma como os alunos têm reagido às diferentes técnicas: “a verdade é que sinto que, de alguma forma, a Arte tem vindo a ajudá-los, nem que seja pelo facto de se sentirem realizados e valorizados”.

Em que consiste o projecto “INcluir – OficINas para todos e para cada um”?

O projecto “Incluir – oficinas para todos e para cada um” baseia-se na ideia de que as Artes Plásticas podem ser o mote para a eliminação do estigma que existe em relação a pessoas com doença mental bem como a outras que se insiram em extractos da sociedade mais desfavorecidos. Para isso foram desenvolvidas oficinas de desenho, pintura, banda desenhada e escultura, frequentadas por alunos que estando inseridos nesses grupos que referi desenvolvem os seus trabalhos, auxiliados por mim e por uma equipa do departamento de psiquiatria do Hospital Distrital de Santarém, isto para mostrarem à sociedade que também eles são capazes de o fazer.

Que balanço faz das actividades desenvolvidas até ao momento?

Até agora, os resultados têm sido extremamente positivos. A título pessoal, tem sido uma experiência fantástica, de um crescimento humano tremendo.

Mas o mais importante tem sido a forma como os alunos têm reagido às diferentes técnicas, e a verdade é que sinto que de alguma forma a Arte tem vindo a ajudá-los, nem que seja pelo facto de se sentirem realizados e valorizados.

Como tem sido a receptividade e a participação neste projecto?

A receptividade tem sido muito boa. Temos vindo a chegar cada vez a mais pessoas. E as exposições e aulas outdoor que iremos fazer serão muito importantes na divulgação do nosso trabalho. Queremos que este seja um projecto que chegue a todos, isto porque é uma questão muito importante, esta de quebrar estigmas e preconceitos que temos perante alguns grupos de pessoas, pessoas essas que no fundo acabam por ter fragilidades, emoções, tristezas e alegrias como qualquer um de nós. E poder fazê-lo através das Artes Plásticas acaba por ser um incentivo mais aliciante.

De onde vem o seu talento para as artes?

Desde miúdo que a arte é o meu refúgio. E embora o desenho tenha sido, como é natural, a área onde dei os primeiros passos, hoje encontrei outras maneiras de me expressar, cada vez mais diversas, como a pintura ou a escultura e a escrita. Acho que para mim o talento vem no seguimento de me manter nesse tal refúgio que tenho desde miúdo, sendo esse o local onde me expresso. Para mim não há nada mais ancestral e humano que a capacidade e a necessidade de nos expressarmos, e eu não fujo à regra.

Como foi o processo de evolução para seu estilo pessoal?

Não acredito que tenha atingido ainda esse nível pessoal. Acho que é um caminho que ainda estou a trilhar. No entanto, há algo essencial na construção dessa personificação do trabalho, a honestidade e a consciência de que venho incutido algo verdadeiramente meu em tudo aquilo que faço.

Desde que começou, até agora, o que mais mudou e o que continua na sua forma de expressão artística?

Acho que essa mudança acaba por ser mais uma evolução gradual do que propriamente algo feito em etapas definidas. Mas para mim é sobretudo importante haver um cada vez maior conhecimento dos materiais e da forma de os trabalhar. Depois, existe a obsessão em cozinhar ideias, contar e ouvir histórias, conhecer pessoas, um artista só se molda a partir da vida.

Aquela ideia do tipo macambúzio, enclausurado num atelier é para mim uma tremenda falácia.

Quais são as suas referências artísticas ao nível da pintura e da escultura?

Certos artistas são incontornáveis como Picasso, Paula Rego, Rodin, Júlio Pomar. Há todavia outros que, sendo menos sonantes, são de momento extremamente importantes para mim como Kippenberger, Miquel Barceló ou Frank Auerbach.

Quais das duas prefere? Porquê?

Como disse, para mim as diferentes áreas acabam por se fundir no meu trabalho, cada vez com mais força. Embora a minha formação nas Belas
Artes seja a Pintura, a Escultura sempre esteve presente. No fundo, o que me dá gozo é realmente a capacidade que os materiais têm de poderem metamorfosear naquilo que o artista quiser que eles sejam.

Viagem de sonho?

Tenho o devaneio de um dia dar a volta ao mundo. E tenho também o devaneio de que tal se afigura não como um devaneio mas sim como uma certeza.

Se pudesse alterar algum facto da História de Portugal qual alteraria?

Talvez o terramoto de 1755. Pela curiosidade de ver como seria a lisboa de hoje se tal evento não tivesse sucedido.

Livro de cabeceira?

“The pleasures of the damned” de Charles Bukowsky.

Acordo ortográfico. Sim ou não?

Não.